Nunca havia andado de trem, nem sabia como era a sensação de estar dentro de um vagão que automaticamente e sem nenhum tipo de transito pudesse me levar para outros municípios além daquele em que morava. Os únicos trens que já frequentei haviam sido aqueles turísticos mas que levam você a lugar nenhum e sem nenhuma finalidade prática.
No entanto ir de um lugar a outro pode ser uma viagem além do caminho percorrido pelo trem ou mesmo ónibus, não digo carro pois se estiver dirigindo não vai conseguir desviar a atenção para pensar em coisas fora o volante, principalmente quando se olha ao redor dos lugares por onde passa e vê a realidade de diferentes pessoas em momentos fantasiosos ou cotidianos que nem ao menos despertam a atenção de quem as vê.
Exemplo clássico dessa situação é observar calmamente as pessoas ao seu redor dentro do trem. pare e veja que sempre há pessoas dormindo, outras ouvindo "mp3", alguns conversando sobre o dia, uns tantos lendo livro ou jornal, e aqueles perdidos no sono embalado pelo balanço dos trilhos. Há ainda os que fazem coisas das mais inacreditáveis do ponto de vista privativo, visto os que insistem em enfiar o dedo no nariz, os que cortam as unhas ou aqueles que dão de comer aos filhos como se estivessem em casa. Pare e reflita sobre o que se passa na mente dessas pessoas e como elas conseguem expor sua privacidade a um público tão grande. Talvez seja pelo simples fato de que todos ali estão totalmente distantes em seus devaneios, e pode apostar que sempre tem alguém pensando sobre a mega sena, outros pensando sobre o salário que poderiam ganhar, alguns podem estar pensando em como matar uma pessoa e ainda pode haver algum sonhador que pense na cor das roupas íntimas da gostosona ao lado.
Sabemos que em nossos pensamentos o único que pode e deve se dar bem somos nós mesmos e por isso fantasiamos em nossas mentes aquilo que queremos para, até mesmo, nos transformar em heróis.
Agora que você pôde olhar ao seu redor e perceber também que há pessoas que reparam nos outros, pode ver que aqueles que estavam em seus momentos privados agora se sentem expostos como se tivessem sido invadidos indesejadamente por todos, ora isso não é verídico pois a invasão maior se deu por parte daqueles espaçosos íntimos que invadiram o coletivo.
Nota-se então que tudo isso está acontecendo dentro de um ambiente vivo e sem fronteiras entre as individualidades.
Enfim percebemos que nossas intimidades diárias estão expostas e a dos demais também.
Indo além do trem, imagine a realidade daquelas pessoas que você vê fora do vagão, aqueles trabalhadores que estão ajustando a linha e depois do expediente irão para casa levar os frutos do trabalho para os filhos, ou as crianças que correm perto da linha nos bairros próximos. Se estão correndo vão chegar a algum lugar que talvez seja uma pipa ou mesmo um amigo, mas podem chegar até suas casas e tomar um copo de agua e ouvir uma bronca da mãe que se diz irritada por ter que avisa-lo sempre sobre os perigos do trem.
O mais assustador é que agora você viu que tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo em seu universo que antes era só seu e agora está infestado de personagens imaginários e reais.
Uma imensa bagunça que só adquire lógica funcional se analisados individualmente cada um dos personagens em relação aos demais dentro de cada ambiente.